O Azeite no Brasil – Parte II


Enquanto a EPAMIG amadrinhava a Olivicultura da Serra da Mantiqueira, paralelamente, no Rio Grande do Sul, com proprietários de maior calibre financeiro e de maior capacidade de investimento, também a Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, topou perfilhar a súbita paixão do brasileiro pelo cultivo das Oliveiras e estimular a sua propagação. O Estado já havia experimentado a Olivicultura ao redor da metade da década de 40. Mas, desafortunadamente, na falta de um estudo apropriados, de informações convenientes, perdeu 300.000 árvores, abandonadas quando não geraram os frutos fundamentais. Apenas em 2005 aconteceria uma auspiciosa reviravolta quando o Governo gaúcho apostou na possibilidade de por lá acrescentar novas plantações, inclusive capazes de sinergia com a indústria vinícola das vizinhanças. Com a verba inicial de R$ 300 mil, apoiou os proprietários interessados em apostar no futuro.

Foi graças ao impacto saudável que sentiu, em 2008, ao deparar com um modelo bem-sucedido de sinergia, que o multímodo Luiz Eduardo Batalha, engenheiro-mecânico, um empreendedor versátil, um pecuarista, o introdutor da marca Burger King no País, transformou seu sobrenome num Azeite já comparado aos melhores do planeta. Dono da Fazenda Guarda Velha, em Pinheiro Machado, numa busca de exemplares de ovinos decidiu visitar a Fazenda Seival, em Candiota, 45 quilômetros de distância. Menos por carneiros e ovelhas, todavia, ele se empolgou com o Olival da Seival, pertencente aos irmãos Adriano e Darci Miolo, do Miolo Wine Group, um dos responsáveis pelo incremento da qualidade dos vinhos finos no País. “Achei o negócio espetacular”, relembra Batalha. “Ao chegar em casa, já sabia que queria fazer igual”. Impulsivamente ele empregou R$ 5 milhões e transformou a Guarda Velha, a ponto de já possuir 90.000 pés de Oliveira e uma unidade industrial de última geração e famosa marca italiana, para a moagem de 1,4 tonelada de Azeitonas por hora.


Sim, o mergulho nesse universo do Azeite pressupõe uma farta dose de audácia. Relembra Rafael Marchetti, cuja família, de Caçapava do Sul, a meio caminho entre Porto Alegre e a fronteira com o Uruguai, atua vigorosamente no segmento de eucaliptos e de pinus: “A Embrapa não recomendou. Mas, nós arriscamos o plantio das Oliveiras em Barra do Ribeiro, perto da capital, e pelo segundo ano consecutivo obtivemos a salvação da nossa lavoura como produtores de Azeite.” No caso, Rafael se refere ao seu Prosperato, em duas ocasiões galardoado no “New York Internacional Olive Oil Competition”, importantíssimo concurso fora da Europa. Daquela operação inaugurada em 2011, em Barra do Ribeiro, a ousadia dos Marchetti logo se fixou na sede da família, em Caçapava do Sul, e daí ainda se espraiou a Sentinela do Sul e a São Sepé.

Uma dificuldade basilar, de todo modo, ainda atravessa o caminho do Azeite de Olivas no Brasil. Num resumo: já existem as mudas, já existem os cultivares assentados e já existem os pomares prontos, já se colhem a Azeitona e já se produz o seu óleo santificado. Inexiste, no entanto, a Cultura do Azeite, aquela Cultura com “C” Maiúsculo, a Cultura que nasce da História, que se solidifica através de séculos e que se cristaliza como Tradição. Determinada a instalar uma ponte consistente sobre tantos obstáculos, a gaúcha Glenda Haas, advogada especializada em Direito Econômico, estudiosa da Olivicultura desde 2013, cursos na Europa e nos EUA, sommeliére de Azeite, em 2017 se uniu a uma outra abnegada, a arquiteta Paula Becker, de cursos na Espanha, e fundou a Olivoteca, uma entidade inédita no ramo, sem fins lucrativos. Respectivamente, . Glenda e Paula coordenam a Fazenda Irapuá e a Fazenda São Jorge, ambas produtoras, no Rio Grande do Sul.

Segura, confiante, Glenda assevera que o Azeite Extra-Virgem do Brasil já atingiu um patamar de qualidade ao nível internacional. Lastima, todavia, as dificuldades de pesquisa que acuam os produtores. “O nosso objetivo é difundir o máximo de conhecimento sobre o Azeite de Olivas Extra-Virgem tanto entre quem produz como para quem consome”. Ela também lamenta o volume oficial, registrado, até Maio de 2018, de Olivicultores: 145 no Sul, em 56 municípios; na Serra da Mantiqueira, 200, em 50 municípios. Comparado ao de outras nações, trata-se de um volume insignificante. E tal escassez se reflete na produção. Estima Paula que, em 2017, o Brasil chegou a uma produção alentada, 100.000 litros, com o acréscimo previsto para 150.000 nos doze meses seguintes. Porém, ainda necessitou suprir o seu mercado com a importação de cerca de 60 milhões. A Olivoteca pretende apontar a solução para a disparidade: “Mais, mais informações”.

Afora os experts do mercado, quase ninguém desconfia que o Brasil seja o sétimo maior importador mundial de Azeite, o segundo fora da Europa, atrás apenas dos EUA, e seja o segundo, no geral, da Azeitona. Sim, a Azeitona em seu estado de fruto comestível, aquela de mesa ou de incorporação em receitas de culinária prosaica, como o Pastel, ou até de Alta Gastronomia, como a Pissaladière, um tipo de torta de cebolas da Provença mediterrânea. De fato, por aqui se desenvolveu o hábito prático de curtir a Azeitona como petisco, item compulsório de um couvert ou um mero elemento de decoração de pratos montados. Mesmo que não tentasse ostentar um grande Azeite, ao País valeria oferecer uma Azeitona assemelhada à que compra de Argentina e Peru, de Egito e Espanha.

E não se deve considerar secundária, em relação a todos os sucedâneos fornecidos pela Oliveira, a sua meiga jóia da coroa, a Azeitona. Por infinitos motivos, é até muito mais fácil comercializá-la. Com as exceções, talvez, das verdes Gordal ou das escuras Azapa, ninguém adquire uma azeitona pelo seu nome de batismo. E nem pelo seu processo de elaboração. Enorme ironia, pois o processo de elaboração da Azeitona que se envasa é tecnicamente mais simples que o do Azeite. Embora demorado, requer menos maquinaria e, por extensão, menos reais. O Azeite, simplificadamente, digamos, lembra um suco de laranjas: basta espremer as Olivas. E a Azeitona passa por etapas diversas da sua colheita à sua embalagem, inclusive um intervalo essencial de repouso e de fermentação.

Ainda assim, é melhor a sua relação de custo e benefício. Em 2017, o Brasil importou cerca de 115.000 toneladas de Azeitona de Mesa, atrás apenas dos Estados Unidos. Só que o mercado norte-americano se estagnou enquanto que o daqui sobe em torno dos 10/12% ao ano. Aliás, há até quem preveja que, em 2020, as necessidades do País terão superado aquelas dos EUA. Pergunta inexorável: e por quê não uma nova fonte de renda na Agricultura? Sim, trata-se de uma questão intrincada, que exige muitas análises e muitos planos de conduta. De novo se empaca no drama da falta de conhecimento. Pois a Olivoteca se propõe a organizar intercâmbios, viagens, estágios em Olivais e em escolas do Exterior, se propõe a coordenar desde cursos de iniciação até os de suplementação.

Marcelo Scófano, degustador profissional e professor de gastronomia do Senac Rio, bem-humorado se autodefine como um Azeitólogo. E assegura: “O Azeite brasileiro é atrevido, mesmo. Os produtores aprendem a fazer no dia-a-dia e na prática”. Apenas a prática, no entanto, por mais elogios que o seu resultado acumule lá fora, logicamente não basta. Evidentemente não basta que o celebradérrimo “Flos Olei”, um dos mais prestigiados guias do Azeite no planeta, tenha compilado, em seu ranking, cinco rótulos de procedência do Brasil. Antes de conquistar o mundo, o Azeite Extra-Virgem necessita, de fato, provocar o amor em sua própria pátria. Precisa que o usuário de seu País deixe de considerá-lo um exotismo do estilo “onde já se viu plantar Oliveiras na Mantiqueira ou no Sul, onde já se viu aqui haver Azeitona ou um Azeite Extra-Virgem”.

Com efeito, em relação ao grego, que consome 22 litros de azeite per capita ao ano, o brasileiro ainda não supera a casa, perdão, ridícula, dos 350 ml. Sim, insignificância. Mas, a insignificância que, multiplicada por mero meio, fará com que o Brasil bata a média anual de 450 ml por habitante dos Estados Unidos. Como? De que modo? O verbo obrigatório é começar, com todos os seus inúmeros sinônimos: iniciar, principiar, romper, instituir, entabular, desencadear, encetar, inaugurar, encabeçar. De forma que o Azeite Extra-Virgem do País orgulhosamente paire, nas gôndolas dos supermercados e nas prateleiras das lojas de alimentos e bebidas com a mesma altanaria que tornou o chamado vinho nacional um exemplo de justa altivez.

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