O Azeite no Brasil – Parte I


No comando de nove naus, três caravelas e uma naveta, exatamente ao meio-dia de 9 de março de 1500 o nobre fidalgo Pedro Álvares Cabral zarpou de Lisboa com a incumbência de contornar a África e, então, de atingir a Índia das especiarias que a coroa lusitana tanto desejava.

Uma conjunção de maus ventos e de correntes marinhas obrigou a sua frota a se afastar da África e a esquecer a sua missão original. E por um tempo angustiante Cabral e os seus 1.500 homens, 700 militares e mais outros 800 agregados de serviço, se perderam no meio do Atlântico Sul, então um oceano absolutamente desconhecido.

Sacrifício. Sufoco. Não havia como se aproximarem da costa, se reabastecerem de víveres indispensáveis. Menos mal, todavia, que a frota dispusesse da tal naveta, ou uma embarcação singela, estritamente destinada ao transporte de seus alimentos. Em seus textos de antologia, Pero Vaz de Caminha, o escrivão-jornalista de Cabral, relatou que carregava o absurdo de seis toneladas de produtos vários como o Azeite e a banha, o vinho e o vinagre, a cebola e o alho, o arroz, o trigo, o açafrão, o açúcar, canela, cravo, gengibre e pimenta, formas enormes de queijo, peças de carne desidratada, galinhas vivas e ovelhas idem, vacas de leite e ainda algumas mudas de Oliveira. Pena. Não há uma menção de como ou onde se instalaram as mudas.


Sabe-se, apenas, que a operação aconteceu em algum dia de abril daquele ano, logo depois do 22 em que a frota aportou junto ao Monte Pascoal, atual Bahia. Era a Vera Cruz, ou Santa Cruz, assim a batizaram. Mas, mesmo em terra tão abençoada as mudas não medraram. Tanto que, em 1532, um outro fidalgo, Brás Cubas, da comitiva de Martim Afonso de Souza, na recém-fundada Vila de São Vicente, além de amostras de Oliveira também enraizou mudas de videira. Nada de exploradores. Os portugueses ostensivamente pretendiam se fixar nas novas plagas.

Não tinham como viver sem o Azeite e sem a bagaceira, uma aguardente à base de uvas, boa companheira no frio e na solidão. Brás Cubas tentou plantar mudas na Serra do Mar e, depois, no topo do Planalto, no lugar em que agora se situa o bairro do Tatuapé, na atual Zona Leste da Paulicéia. Pois se sabe que, igualmente, não medraram. E os colonizadores se obrigaram a solucionar o dilema. No caso do Azeite, que se tornava rançoso por suas próprias características, pelos longos traslados e pelo primitivismo da tecnologia da época, sem saída não se incomodaram em consumi-lo mesmo imperfeito, inclusive porque até o muito ruim servia como combustível de iluminação. No caso da bagaceira, porém, que azedava e se transformava numa beberagem vil, menos mal que logo encontraram um substituto, o cauim, fermentado rústico que os nativos cometiam ao mastigarem o milho e a mandioca e então cuspirem o resultado numa cumbuca. A princípio, bem, se enojaram. Mas, na falta de alternativa, aderiram.

Durante três séculos as videiras dos portugueses e depois dos já brasileiros superpuseram fracassos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, em Minas Gerais e em Pernambuco. Só em 1842, incrivelmente, graças a um aventureiro anglo-americano, Thomas Messiter, radicado na beira da Lagoa dos Patos, imediações de Porto Alegre, a uva inauguraria a sua real história no País. Messiter era bom amigo de José Marques Lisboa, aristocrata gaúcho e patriarca da família do Marquês de Tamandaré, o futuro almirante-herói da Guerra do Paraguai. Seduziu Lisboa a lhe pagar uma expedição agro botânica nos EUA. E de lá trouxe uma variedade providencial de uva, a Isabel, que viraria a mãe da Vitivinicultura no Brasil. Isso mesmo. O País deve os começos do seu vinho a um aventureiro. A Oliveira, porém, demoraria muito até encontrar quem se interessasse. Aliás, paralelamente, ou simultaneamente, e numa mesma região, curiosamente, dois portugueses.

Alguns registros fidedignos confirmam que, em torno de 1800, imigrantes açorianos exercitaram o seu plantio da Oliveira no Sul do País. Todavia, provenientes de ilhas vulcânicas, tais imigrantes recorriam à técnica do Pousio, uma técnica complexa, peculiar, que exige um descanso para o solo a cada dois anos. Ansioso e impaciente na sua tenra juventude, o Brasil, claro, não poderia esperar. E os Olivais dos açorianos não prosperaram. Cederam espaço a cultivares de arroz e de trigo, até de cevada e de alpiste. Também consta que a Família Real trouxe mudas ao se transferir, de Lisboa ao Rio, em março de 1808. De todo modo, em abril de 1821, ao retornar à matriz, Dom João VI ordenou a sua destruição pelo fogo: o monarca temia que o eventual Azeite da Colônia estorvasse o original.

Assim, apenas na primeira metade do Século XX, através de Antonio de Oliveira Pires e de Emídio Ferreira dos Santos, na Serra da Mantiqueira, verdadeiros Olivais por aqui surgiriam. Pires apareceu primeiro. Um morador da Leiria, na Beira, um centro industrial com muitas fábricas de cerâmica, de vidro e de cimento, padecia de moléstia pulmonar e, porque dispunha de dinheiramas a granel, aceitou uma recomendação médica e, em 1936, buscou os ares amenos de Campos do Jordão. A sua fortuna lhe permitiu trazer consigo um lote de preciosas mudas de Oliveira. Uma década depois, caberia a Santos singrar as ondas do seu Porto até o Brasil. Por uma razão diversa, mas numa incrível coincidência: uma oferta para cuidar de uma fazendola na mesma Mantiqueira de Pires, em Maria da Fé, um município pequenino, a cerca de 80 quilômetros de Campos. Um sonhador, determinado a reproduzir nas terras novas uma parte da paisagem da sua pátria, ele também encheu a sua bagagem de mudas.

Devidamente aclimatado, Pires deixou marcas profundas em Campos do Jordão. Foi o pioneiro na implantação do transporte público, uma linha que conectava Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. E foi o pioneiro na industrialização do Azeite no País. Em 8 de abril de 1959, em Pousada da Serra, inaugurou uma fábrica que seguia as então regras das suas congêneres de Portugal. No centro de um tanque circular havia um motor elétrico que acionava um par de moendas de pedra, cada qual com 500 quilos, o peso que esmagava as Azeitonas. Em recipientes de fibra vegetal se filtrava a pasta resultante, que ainda era emulsionada com água fervente e depositada em toneletes de folha de flandres. Por suas densidades diferentes, após um tempo de repouso o Azeite e a água se separavam. Enfim a água se escoava por um tubo-ladrão e um Azeite remanescia. Não necessariamente Extra Virgem, mas um Azeite.

Quanto a Santos, não se limitou a enraizar as suas mudas na fazenda que dirigia, batizada de Pomária. Espalhou-as pelas ruas e pelas praças de Maria da Fé. Infelizmente, os moradores da cidadezinha mais se interessaram por suas lavouras de batata. E desprezaram as oliveiras de Santos até que, por volta de 1995, técnicos sábios da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, a EPAMIG, se empenharam em um projeto intensivo de pesquisas para o plantio de Oliveiras no Estado. Maria da Fé funcionou como modelo. Depois de recolher, de tratar e recuperar as tão queridas Oliveiras de Santos, em 29 de fevereiro de 2008, dia charmosamente bissexto, a EPAMIG certificou o primeiro Azeite genuinamente extraído no Brasil.

Então, já havia cerca de quarenta produtores na fronteira de Minas e São Paulo. Bem definiu, na época, com uma imagem bíblica, Walter Santos de Alvarenga, o secretário de Cultura e Turismo de Maria da Fé: “A cidade tinha se tornado infeliz. E o resgate das Oliveiras representou um renascimento, assim como ocorreu no advento da Arca de Noé.” E ninguém reagiu mal, pelo contrário, quando os seus vereadores aprovaram uma Lei que literalmente estabelecia um tombamento das suas novecentas antigas Oliveiras. Os primeiros resultados empolgaram pequenos proprietários que já testavam alternativas de lavouras. E a magia dos Olivais se estendeu a mais de vinte municípios das vizinhanças, as novas árvores a se entremearem numa

linda paisagem de cafezais, de eucaliptos e jacarandás.

Inúmeros produtores daquelas colinas aderiram à paixão pela Azeitona quase acidentalmente, sem informação a respeito do que se tratava. Por exemplo, Silvia Marques, uma psicóloga que herdou do pai o Sítio Águas Claras: “Estava à procura de alguma atividade para o local, vi uma reportagem sobre a Olivicultura e me interessei”. Dono do Kanguru Supermercado, na Zona Leste de São Paulo, o empresário Joaquim Jerônimo originalmente se interessava muito mais pelo sucesso do seu Hotel Monte das Oliveiras, em Joanópolis, a cerca de 120 quilômetros da capital. Só que lá existem 3.000 pés de Oliveiras. Aos poucos, ele decidiu se aperfeiçoar no ramo, e inclusive contratou agrônomos estrangeiros que soubessem de que maneira trabalhar o solo para os Olivais. Em Aiuruoca, o economista Nélio Weiss se estabeleceu, primeiro, com a intenção de escapulir das tensões da Paulicéia. Em dez anos reflorestou uma vasta superfície de 32 hectares com 21.000 árvores, 15.000 amostras da mata nativa e 6.000 Oliveiras. Evidentemente, destinadas à produção do seu Azeite, que ganhou embalagem e rótulo em 2017. E Weiss não descura dos sucedâneos possíveis, as folhas para infusões, os frutos que se adequem para mesa.

O negócio fervilhou na região, e fervilhou tanto que, lá, logo, até mesmo se constituiu a Assoolive, a Associação dos Olivicultores dos Contrafortes da Mantiqueira. A entidade, atualmente, também agrega os produtores da Bocaina, o que amplificou os afiliados a quase 200. E, de acordo com Carlos Diniz, então seu presidente, em 2017 apenas 25% desses eram agricultores de fato tradicionais: “Reunimos profissionais liberais e empresários de outros setores, que vislumbraram a probabilidade motivadora, e muito prazerosa, de aplicação”. Em 2018, o esforço da Assoolive atingiu uma segunda fase. Encerrada aquela da implantação dos pomares e de seu desenvolvimento, a entidade resolveu criar um selo de qualidade de modo a demarcar a região, à europeia, com uma designação de garantia e com a formalização de parâmetros mais rígidos até que os estabelecidos pela legislação específica.

E no Sul do Brasil, como a fantasia e o sonho se tornaram realidade, benesse, excelente comércio? Na Parte II deste artigo você decifra essa charada e aprende muito mais.

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